Bem Vindo

- Com esta série não é pretendido fazer história, mas sim é visado, ao lado das imagens, que poderão ser úteis aos leitores, a sintetizar em seus acontecimentos principais a vida da Cidade de Porto Alegre inserida na História.

Não se despreza documentos oficiais ou fontes fidedignas para garantir a credibilidade; o que hoje é uma verdade amanhã pode ser contestado. A busca por fatos, dados, informações, a pesquisa, reconhecer a qualidade no esforço e trabalho de terceiros, transformam o resultado em um caminho instigante e incansável na busca pela História.

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- Em História, não podemos gerar Dogmas que gerem Heresias e Blasfêmias e nos façam Intransigentes.

- Acompanhe neste relato, que se diz singelo; a História e as Transformações de Porto Alegre.

Poderá demorar um pouquinho para baixar, mas vale à pena. - Bom Passeio.

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quarta-feira, 22 de março de 2017

Pelourinho 
Cidade de Porto Alegre

Pelourinho origina –se do frâncês “pilori” francização do latim “pilorium”, derivado de “pila” = pilar ou coluna + sufixo “orium”.

O que representava a palavra “pelourinho” no período colonial e imperial brasileiro?

- Trata-se de colunas construídas de pau ou de pedra, colocadas em lugares públicos de uma cidade ou vila. Eram o lugar de se "fazer justiça".



- Era o símbolo da autonomia municipal, era uma coluna, geralmente de pedra encimada com a coroa real, erguida em frente ao local chamado “Paço Municipal ou Paço do Conselho”.
Nessa coluna colocavam-se os editais com a decisão da Câmara, chamadas “Posturas”.
Nela também eram amarrados os escravos condenados a castigos corporais, e para execração pública.


- A ereção do pelourinho representava assim, um grande acontecimento na vida da povoação.

- O Pelourinho era o lugar público (praça) de uma povoação (vila ou cidade) onde eram punidos e expostos escravos rebeldes e criminosos, ao escárnio público.

As execuções capitais (penas de morte) não eram feitas nos pelourinhos, mas na forca, erguidas em outro lugar.

- Muitos tinham no topo uma pequena casa em forma de guarita, feita de grades de ferro, onde os condenados eram expostos à vergonha pública.
Já em outros, existiam apenas argolas para prender e açoitar os presos.

- No Brasil, o mais comum era o pelourinho feito de madeira, com uma argola na ponta. Frequentemente utilizado para castigar escravos, o pelourinho acabou assumindo, em nosso país, o símbolo da violência da escravidão.

- No Brasil Colônia, o pelourinho, símbolo do Poder do Governo, geralmente levantado em frente à Casa da Câmara e da Cadeia (atual Câmara dos Vereadores) foi muito usado para castigar os escravos com açoites.

- Do Brasil Colônia restam apenas 5 pelourinhos: Paranaguá (PR), Alcântara (MA) Mariana, (MG), Óbidos (PA) e Rio Grande (RS).

Primeiro Registro

Data de 1782, o primeiro registro de um pelourinho em Porto Alegre, citado em um ofício da Câmara pedindo que se mandasse vir do Rio de Janeiro, capital da Colônia, um padrão indicativo de autonomia. O pedido não foi atendido.

Em 1784, o pedido foi reiterado.

- Nesta ocasião provavelmente veio o dito padrão e este foi instalado.

Em 1786, em uma escritura de compra e venda quando foi mencionado, - seu local não é indicado; apenas é dito que fora erguido em uma praça e que ali já não estava. 
Sua localização original, pois, é incerta.

Ergue-se o Pelourinho

Em 14 de novembro de 1810, em Porto Alegre, o novo ouvidor e corregedor Dr. Antonio Monteiro Rocha, mandou Ofício a Câmara ordenando que prontificasse o Pelourinho para as Cerimônias, e que fosse de pedra (nos tempos do Império, a freguesia precisava ter um pelourinho para ser elevada a condição de Villa).

- Assim foi feito, às pressas pelo pedreiro Jacinto José, que recebeu 177$780 réis, a obra foi erguida em frente à Igreja das Dores, em plena Rua da Praia, a principal artéria da Freguesia, o local depois conhecido como Largo da Forca.
Esse monumento simbólico acabou não sendo muito utilizado, - mas o foi!



- A elevação de “Villa” para Porto Alegre foi à definição da divisão política do município.

Isabelle, Arsène, descreve o pelourinho de Porto Alegre em 1833:

“Cada dia, das sete às oito horas da manhã, pode-se assistir, em Porto Alegre, a um drama sangrento. Ponto de reunião – a praia, ao lado do Arsenal; de fronte de uma igreja (das Dores), diante do instrumento de suplício de um divino legislador; vereis uma coluna erguida num maciço de alvenaria e ao pé... uma massa informe, alguma coisa certamente pertencente ao reino animal, mas que não podeis classificar entre bímanos e bípedes... é um negro!...

Passai, retirai-vos dessa cena de desolação; o infortunado tem apenas membros mutilados, que mal se conhecem, sob os farrapos ensangüentados de sua pele murcha.”

Em 1833, este pelourinho foi indicado em um desenho, realizado por Tito Lívio Zambeccari, como estando localizado no largo fronteiro à Igreja das Dores.


- No mesmo ano, a Câmara aprovou o início da construção da cadeia pública, e solicitou que o pelourinho fosse transferido para outro local, pois onde estava estorvaria as obras previstas.

- Logo em seguida, a construção foi suspensa, e as pedras que já haviam sido trazidas foram usadas para a construção de um cais pertencente à Ordem Terceira de Nossa Senhora das Dores.

De 1839, uma planta da cidade ainda o assinala neste local o pelourinho, no item 48, as margens do Guaíba na Praca do Arsenal, entres as ruas 15 - Rua Direita (atual Rua General Bento Martins) e rua 16 - Rua do Arroio (atual Avenida Padre Tome), em frente ao Arsenal de Guerra e a Intendencia, deste mapa em diante a indicação do Pelourinho, não é mais citado nas fontes históricas.

Este mapa mostra as condições de Porto Alegre, em 1839, durante a Guerra dos Farrapos. 
Título original:

"Planta da Cidade de Porto-Allegre, com a linha de trincheiras e fortificações, que lhe tem servido de defesa desde o memorável dia 15 de junho de 1836, com as retificações e melhoramentos que se tem feito por motivo de ter sido atacada pelos sediciosos em 1836, 1837, e sitiada em 1838, 1839, tempo em que está concluída com duas vistas, uma de Leste, outra do Oeste com as declarações a respeito. Porto Alegre 2 de dezembro de 1839".


- O mapa apresentado aqui sofreu alguma edição para se reduzir o tamanho da imagem, veja o original na Biblioteca Nacional (autor L.P. Dias).

A Igreja das Dores tem uma relação direta com o  
Pelourinho de Porto Alegre.

Nossa Senhora das Dores
O culto a Nossa Senhora das Dores
No século XV, tem origem as celebrações em torno dos sofrimentos de Maria, mas somente em 1667 foi estabelecida uma liturgia com iconografia definida. Assim, as chamadas Sete Dores de Maria - a profecia de Simeão, a Fuga para o Egito, a perda de Jesus no Templo aos doze anos, o caminho da cruz, a crucificação, a deposição e o sepultamento de Jesus - passaram a ser representados simbolicamente por sete espadas, ou às vezes uma só, cravadas no coração da Virgem. 

- Esta devoção foi introduzida em Portugal pelos padres Oratorianos, e chegou ao Brasil por volta de 1770, estabelecendo-se primeiramente em Minas Gerais.

A Irmandade
Em 1779, em Porto Alegre, o culto já era registrado, quando um grupo de devotos mandava celebrar uma missa especial todas as sextas-feiras em honra de sua Padroeira, entronizada num dos altares laterais da antiga Matriz da Mãe de Deus.

Em 1801, este núcleo foi a origem da Irmandade de Nossa Senhora das Dores, que foi organizada definitivamente.

Em 1819, um Indulto Apostólico elevou a Irmandade à categoria de Ordem Terceira, subordinada aos padres Servitas.

Em 18 de setembro de 1824, ordem foi confirmada, com uma série de exigências para admissão de novos membros, o que ameaçou a Ordem de extinção. Por causa disso o Prior da Irmandade revogou os impedimentos, admitiu antigos integrantes e aumentou as contribuições.

Em 24 de outubro de 1832, foi criada como freguesia autônoma, desmembrada da paróquia da Mãe de Deus, mas por ser uma comunidade pobre e ainda estar envolvida em uma construção dispendiosa.

Em 1859, recebeu um pároco em, quando o Imperador Dom Pedro II indicou o Padre José Soares do Patrocínio Mendonça para o cargo.

Paróquia de Nossa Senhora das Dores
- É a igreja mais antiga da cidade ainda existente.

- Sua construção se arrastou por muito tempo e o plano da fachada foi modificado quando ainda estava em obras, exibindo hoje um estilo eclético, mas o interior é ricamente decorado com talha dourada num estilo Barroco tardio com elementos neoclássicos, além de possuir um importante grupo de estátuas barrocas de Cristo em tamanho natural representando o ciclo da Paixão.

Em 02 de fevereiro de 1807, tendo sua pedra fundamental lançada, a construção da Igreja de Nossa Senhora das Dores, teve início, o mais antigo templo católico de Porto Alegre, foi por iniciativa da Irmandade Ordem Terceira de Nossa Senhora das Dores.

Em meados de 1813, as primeiras celebrações religiosas ocorreram, com a conclusão das obras da capela-mor.

Em 23 de junho de 1813, foi trasladada a imagem de Nossa Senhora das Dores da antiga Matriz até a sua nova casa.

- O historiador Sérgio da Costa Franco relata que, em 23 de junho de 1813, a chegada da imagem da santa ao templo aconteceu “com acompanhamento de todo o clero, fiéis, o Capitão-General Dom Diogo de Souza, estado-maior e tropa.”

Somente em 1846, o historiador Sérgio da Costa Franco aponta um novo aporte de recursos encaminhou o andamento das obras de construção da igreja:

Em 1846, fisicamente, até a presidência d Luís Alves de Lima e Silva, o Conde de Caxias, o templo continuava limitado à capela-mor, com o acréscimo de um barracão a título de nave. Caxias lhe destinou quatro contos de réis, que serviram para levantar os alicerces das grossas paredes laterais da nave, até a altura de 18 palmos acima da terra.

Por volta de 1857, com as paredes erguidas, João do Couto e Silva instalou o telhado e terminou a fachada (ainda sem revestimento) e a abóbada, terminando esta etapa em 1860.

Em 1863, como o projeto inicial fora alterado, uma comissão foi constituída para realizar as necessárias correções, supervisionadas por Luiz Vieira Ferreira e concluídas em 1866.

Em meados de 1866, com intermitências, a Fazenda Provincial foi destinando verbas para a conclusão da igreja, o que permitiu o acabamento do corpo principal.

Em 10 de maio de 1868, o templo foi então consagrado por Dom Sebastião Dias Laranjeira. A escadaria monumental da frente só seria terminada em 1873, sendo que o acesso anteriormente se dava pela rua Riachuelo, atrás da igreja.

Só em 1873, ficou pronta a grande escadaria a partir da Rua dos Andradas, sendo até então o único acesso possível através da Rua Riachuelo.

Até o fim do século XIX, o edifício não recebera revestimento nem possuía torres, e então a comunidade reuniu forças para os arremates necessários.

- Foi então que um grande esforço do clero, dos paroquianos e da Ordem Terceira reuniu os fundos necessários para o término do templo.

- O projeto original em estilo barroco colonial, já desfigurado, foi definitivamente abandonado, e encomendou-se um novo do arquiteto Júlio Weise, que traçou uma fachada em estilo eclético com influência germânica, onde se incluíram três esculturas do artista João Vicente Friedrichs, representando a , a Esperança e a Caridade, mais um frontão em baixo-relevo.

Em dezembro de 1900, fez-se a inauguração da torre ocidental.

Em 1901, a da torre do lado leste.

Nos primeiros meses de 1904, puderam ser removidos os últimos andaimes da obra da fachada.

Em 1938, foi tombada e declarada patrimônio histórico e artístico nacional, sendo a única igreja de Porto Alegre tombada em nível nacional, sob fiscalização do IPHAN.

No período de 1951, até finais dos anos 70, a igreja ficou aos cuidados dos Padres da Congregação do Santíssimo Sacramento, convidados pelo então Arcebispo de Porto Alegre, Dom Alfredo Vicente Scherer para dar início à Obra da Adoração Perpétua na capital gaúcha, tendo como Santuário a Matriz das Dores.

Nave em Restauro
- Seu interior ainda apresenta muito das primitivas feições coloniais. A entrada se faz através de três portas, sendo que a central desemboca em um pára-vento envidraçado. Acima existe um coro de madeira, suportado por arcos e colunas coríntias. Há uma só nave, ladeada por uma série de altares ricamente entalhados e dourados por João do Couto e Silva, com perfil em arco redondo e larga moldura decorada, colunas salomônicas e baldaquinos, além de nichos para estatuária. Em 2007, removida para restauro.

- Também se alinham na nave diversas tribunas com portas de vitral e gradis bombée em ferro trabalhado, e dois púlpitos. A pintura do teto, dividido em caixotões, é obra de Germano Traub, basicamente em motivos florais e geométricos, com medalhões figurativos. Os lustres são um trabalho contemporâneo.

- A capela-mor é delimitada por um grande arco redondo com um friso floral e uma pintura com querubins. Possui também tribunas e o altar-mor é uma bela peça em estilo escalonado, já de traços neoclássicos, com um grupo escultórico no topo, com imagens de Cristo na cruz, ladeado pela Mater Dolorosa e por São João. Desta capela abrem-se portas para uma outra capela à esquerda, mais simplesmente decorada, e salas de administração à direita.

- O templo possui diversas estátuas preciosas, dentre elas sete imagens representando os passos da Paixão de Jesus Cristo, trazidas de Portugal em 1871; duas imagens da santa padroeira da igreja, uma de 1820, com rosto de porcelana, e outra da segunda metade do século XVII, com espada e diadema de prata; um São Francisco Xavier, vindo da Itália, e um Sagrado Coração de Maria, oriundo da Espanha.

Projetos de Restauro
- Depois de sua conclusão, com o passar dos anos a igreja sofreu séria deterioração, e obras de restauro foram realizadas em caráter emergencial em 1980 no telhado e forro, em 1996 na capela-mor, e em 1998 na escadaria.

De 2001, em diante novas obras, desta vez para remodelamento do estacionamento e ampliação do salão de festas, utilizando os recursos provenientes da comunidade e das Leis de Incentivo à Cultura em nível estadual e federal, um projeto que foi continuado a partir de 2003 para recuperação dos bens integrados do interior, tais como altares, forro, pinturas decorativas, coro e outras peças e imagens destinadas a formarem futuramente um museu de arte sacra.

A partir de 2007, teve início a recuperação do exterior, tendo sido incluída no Projeto Monumenta, com participação do BID, da UNESCO e do Banco Mundial. Também está sendo planejada a prospecção arqueológica do subsolo da igreja e de seus arredores, realizada em parceria com o Projeto de Arqueologia Urbana desenvolvido pelo Museu Joaquim Felizardo.

- Há uma lenda envolvendo a construção da Igreja de Nossa Senhora das Dores, o texto “As Torres Malditas”, mal escrito, foi extraído do livro “Lendas Gaúchas” (2007).

As Torres Malditas
- Quando as águas do Guaíba ainda costumavam encostar na Rua da Praia, no centro de Porto Alegre, começou a ser construída a Igreja de Nossa Senhora das Dores. Demorou quase um século para ficar pronta. Sua pedra fundamental foi lançada em 1807. Nos idos de 1830, não passava de um mero canteiro de obras. A demora, diz a lenda, nada teria a ver com cálculos malfeitos, e sim com preconceito e injustiça. Construída em estilo barroco, a igreja tem duas torres de cerca de cinqüenta metros e uma alta escadaria, num conjunto harmonioso.

- Este belo templo de fé e arquitetura, no entanto, não teve nada de harmonioso em sua edificação.

- O atraso nos primórdios da obra se explica pela forma como era custeada. Todos os recursos ali empregados vinham de doações dos moradores mais endinheirados de Porto Alegre, naquela época muito poucos por sinal. Assim, o andamento da construção dependia da quase sempre escassa boa vontade desses doadores. De vez em quando, se a situação permitisse, lá iam entregar madeira, pedra, bronze para os sinos, tinta para os santos, vidro para os vitrais. Vez que outra, a oferta era mesmo em dinheiro.

- Botar escravos para trabalhar também era uma forma de contribuir com a obra da igreja. Afinal, eram os negros que faziam todo o trabalho braçal naqueles tempos. Emprestando alguns de seus cativos para as lides da construção, o senhor de escravos ficava com a consciência limpa e com a certeza de que estava garantindo o seu lugar no céu, a custa do suor dos outros.

- Um desses senhores era Domingos José Lopes. Um desses negros chamava-se Josino.

- Domingos, que era proprietário de Josino, havia emprestado o escravo para trabalhar na santa obra. Josino trabalhava duro todo o dia, seguindo ordens. Levava tábuas para cima e para baixo, carregava pedras mais pesadas do que ele mesmo, encarava o sol do meio-dia, sem água, sem comida, sem descanso, sem reclamar, até a exaustão. Ele sabia o que acontecia com os que reclamavam e não queria que acontecesse o mesmo com ele.

- Apesar do esforço de Josino e de centenas de escravos como ele, que todo dia davam o couro em prol da paróquia, a obra parecia que não andava no ritmo esperado. Porto Alegre crescia, as doações aumentavam, mas a igreja das Dores continuava do mesmo tamanho.

- Havia um motivo para isso.

- Boa parte da madeira que chegava à igreja pouco ali ficava. Assim como parte das pedras. A terra, os pregos, barro, a argila, quase todo o donativo era deixado no canteiro de obras, mas de lá saía praticamente intacto. Os ricos doavam, mas depois de doar pegavam um bom pedaço de volta. Os escravos ficavam numa labuta insana, carregando coisas de um lado para o outro, tirando de uma carroça de manhã para colocar na mesma no final da tarde. Sem reclamar.

- Josino sabia disso tudo, mas ficava quieto. Quem ia acreditar na palavra de um escravo? Era ele contra todos, e ele já havia apanhado demais na vida para saber que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

- Anos se passaram. Depois de muito trabalho e desvio de material, a igreja finalmente tomou corpo, faltando para a conclusão somente as duas torres. Mesmo sem a obra estar completamente pronta, decidiram que já era a hora de se fazer a inauguração. Foi então instalada no interior do templo uma imagem de Nossa Senhora, ricamente enfeitada, cheia de jóias. Chegava o momento da consagração.

- Eis que sumiu uma das pedras preciosas que adornavam a imagem da mãe de Cristo. Muito se discute obre quem seria o autor do roubo. Uns dizem que foi um padre, para dar de presente à amante. Outros apontam um homem muito rico, ansioso em ficar mais rico. Há quem afirme que o tal roubo nunca existiu, que a imagem já chegou sem a jóia. Se alguém levou a preciosidade, foi no caminho até Porto Alegre.

- Mas quem quer que tenha sido o verdadeiro culpado, um inocente teve de pagar pelo crime: - o escravo Josino.

- Naquele tempo pouco adiantava contestar acusações, e as pessoas, ainda mais um escravo, podiam ser condenadas sem provas. Cabia a Domingos, proprietário de Josino, escolher sua sentença. Domingos nem pensou em defendê-lo. Muito pelo contrário: condenou-o à morte por enforcamento.

- Escravos, afinal de contas, eram coisas que se vendiam e se compravam, um a mais ou um a menos não faria nenhuma diferença para um grande proprietário como ele. Quem se importava com a alma de um escravo? - Muitos acreditavam que os negros nem alma tinham. Não adiantava reclamar.

- No dia da execução, no entanto, Josino reclamou.
- O pelourinho, para onde eram levados os condenados à forca, ficava exatamente na frente da igreja das Dores.
A Josino foi dado o direito de dizer suas últimas palavras. Pediu a ajuda de Deus e rogou uma praga para obra que lhe havia custado a vida:

– Vou morrer porque sou escravo, mas vou morrer inocente. A prova da minha inocência é que as torres da Igreja das Dores nunca vão ficar prontas! - Pela injustiça, seu senhor jamais veria o fim das obras das torres da igreja.



- Poucas pessoas lhe deram ouvido na hora, mas suas palavras seriam lembradas mais tarde. Cinco meses depois do enforcamento de Josino, conta a tradição que as torres quase concluídas balançaram uma, duas, três vezes e se esfarelaram no chão como -

- A notícia correu a cidade e todos lembraram então da ameaça do escravo.

- Rezaram-se novenas e mais novenas pela alma do inocente, para que a igreja pudesse ser concluída, mas nada adiantou.

- A maldição de Josino se mantinha. Par décadas as obras continuaram em vão. O reboco desmoronava, perdiam-se as plantas, até raios caiam atingindo a construção.

Walter Spalding registra em seu livro Pequena História de Porto Alegre, o seguinte:

“Conta uma lenda que um condenado à morte pela forca (que ficava fronteira à igreja) dizendo que morria inocente dava como prova o fato de jamais serem construídas as torres da igreja. Realmente, as torres, como haviam sido projetadas, de acordo com o todo do edifício, jamais foram construídas, pois que outras, em 1901, ocuparam seu lugar, em estilo absolutamente discordante do conjunto. Esse acontecimento – a ‘praga’ do condenado - muito influiu para a destruição da forca – o pelourinho – de Porto Alegre.”

Somente em 20 de julho de 1901, a praga de Josino se extinguiria. A Igreja de Nossa Senhora das Dores enfim seria completada, com a colocação de um cruzeiro de ferro entre as duas torres, agora bem sólidas.

-E uma ironia histórica se completaria: o cruzeiro foi colocado pelo prior da irmandade na época, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, negro coma o escravo Josino.

- Contudo, o historiador Sérgio da Costa Franco alega que a história é falsa, e a condenação do dito escravo ocorreu em virtude de um assassinato.

- A Igreja Nossa Senhora das Dores é uma igreja católica localizada em Porto Alegre, à Rua dos Andradas, s/n, com entrada também lateral pela Rua Riachuelo, 

A mais antiga igreja da cidade ainda de pé e opulenta. 

Fontes:
Élvio (editor). Torres da Província: História e Iconografia das Igrejas de Porto Alegre. Porto Alegre: Pallotti, 2004.
Franco, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da Universidade (UFRGS)/Prefeitura Municipal, 1988.
Laytano, Dante de. Lendas do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Publicação Estadual de Folclore do Rio Grande do Sul, 1956.
Fagundes, Antonio Augusto. Mitos e Lendas do Rio Grande do Sul. Martins Livreiro Editor.
Lessa, Barbosa. Estórias e Lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo: Gráfica e Editora EDIGRAF Ltda.
Franco, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: EdiUFRGS, 2006. pp. 310-311-136
HAASE FILHO, Pedro (org.) Lendas gaúchas. Porto Alegre: RBS Publicações, 2007.
Franco, Sérgio da Costa, Guia Histórico de Porto Alegre, UFRGS Editora, 2006, Pg. 137.

Spalding, Walter, Pequena História de Porto Alegre, Ed. Sulina, 1967, Pg. 252 e 253

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